Como fazer um mosaico com pessoas e ideias? Saiba conhecendo um pouco mais sobre Thea e o Baukurs.

Conseguimos convencer Thea Schünemann, a diretora e fundadora do Baukurs e do Baukurs Cultural, a autorizar a publicação do belo relato de suas realizações através do tempo. O texto abaixo foi escrito por ela mesma, com o objetivo de nos dar informações que seriam compiladas como currículo. Mas achamos que a compilação é desnecessária e vimos a importância de publicar na íntegra essa linda trajetória. Aproveite!

Quem sou eu?, por Thea Schünemann

Acho que minha experiência com o mundo artístico começou quando eu tinha 15 anos de idade e passei um ano em um internato luterano no Rio Grande do Sul. Minha família morava no Rio mas minha mãe, exausta com a filha rebelde (eu sou a quinta filha, a caçula!), me mandou para esse internato em Novo Hamburgo. Ao contrário de ser um castigo, foi uma experiência extremamente libertadora. ADOREI o internato.

É verdade que no final de um ano fui convidada a me retirar, tendo como observação em minha ficha 7 (era assim que se chamava o boletim naquele tempo) a obsrervação: líder negativa “inadaptável” socialmente.

Era a época dos festivais da canção, e no embalo destes, no RGS também havia o festival da canção dos estudantes do colegial, como era chamado na época o segundo grau. Eu tocava violão e flauta doce, cantava e compunha umas músicas tipo samba-canção. Ganhei o festival da cidade de Novo Hamburgo na categoria de composição e interpretação, e fui participar do festival estadual. Meu primo Werner Schünemann (o ator da TV Globo) ganhou o primeiro lugar no festival estadual. Eu ganhei o segundo, ele o terceiro e eu o quarto… Ou seja, só dava Schünemann.

Bom… mais tarde, mas ainda jovem (bem jovem) participei do movimento de teatro alternativo (teatro de rua) que ficava sediado no teatro Cacilda Becker, no Rio de Janeiro. Meu grupo chamava-se Pé de Chinelo, e à frente do grupo estava o Zé da Costa (hoje professor de Teatro da Unirio). Participei um pouco também do grupo Dia-a-Dia e tive aulas com Amir Haddad (que nem deve mais se lembrar de mim!). Cheguei a entrar para a faculdade de teatro da Unirio, mas não cursei quase nada.

Casei com o Zé Carlos de Souza, diretor do grupo TAL e ativista pelo então recém fundado movimento pela consciência negra. Como o Zé Carlos tinha 3 filhos do primeiro casamento que viviam com a gente e alguém precisava ganhar o pão, ficava mais fácil esse alguém ser eu, já que eu falava alemão. Susi, minha irmã, me convidou a fundar o Baukurs, com mais 3 sócias, e apesar de eu ser o “azarão” da parada, acabei conduzindo o Baukurs sozinha, pois a sócias anteriores foram se afastando do curso com o passar dos anos.

Nessa época, também fui contratada pela Escola Corcovado para ministrar aulas de artes plásticas e música/flauta para crianças. Depois de 1 ano na escola passei a também dar aulas de alemão e fundei um grupo de teatro com alunos adolescentes na escola, um curso extra-currícular. Depois de mais 1 ano fui convidada a ser coordenadora do ensino de alemão.

No Baukurs, nesse tempo, criei o Cineclube Baukurs. Participei de várias jornadas de cineclubistas em Curitiba. Éramos jovens sedentos para ver filmes que não passavam no circuito comercial. Filmes europeus, proibidos pela censura. Tinha um gostinho bom de fazer algo proibido… e discutir a vida, afinal, era uma época de muita repressão. Alguns cineclubes viraram inclusive pontos de organização da esquerda.

Ainda no Baukurs dei aulas de mímica, como recurso para a língua, e na Escola Corcovado implementamos um método revolucionário para o aprendizado da língua alemã, que utilizava o fantoche como veículo da comunicação da língua estrangeira. Acabei me interessando muito sobre esse novo método e fiz vários cursos para aperfeiçoar a metodologia, inclusive na Alemanha.

Mais tarde criamos o Coro do Baukurs. Primeiro tentei reger o coro, mas rapidamente verifiquei que não tinha conhecimento teórico de música suficiente para tal. Marcelo Bucique, Caio Senna e Júlio Moretzsohn (exepcionais músicos e regentes) foram os 3 regentes do Coro Baukurs. Julio regeu o Coro por mais tempo (10 anos), e realizou um excelente trabalho. Era talvez um dos melhores coros amadores do Rio de Janeiro. Eu cantei durante 8 anos no coro, depois me afastei.

Fui também contratada pelo Instituto Goethe e com o passar dos anos me especializei em literatura alemã. No decorrer do tempo, fiz vários cursos de especialização na Alemanha, sempre nessa área. Passei a trabalhar também com formação de professores.

No Baukurs, além do Coro e do Cineclube nós também fizemos algumas aulas de teatro e língua, organizamos workshops de culinária, exposições (pequenas) e fizemos muitas, muitas festas. Teve uma emblemática, inesquecível, que foi uma festa de Natal no Museu do Açúde. Foi MARAVILHOSO!

Nesses anos dei algumas entrevistas e participei de alguns congressos e seminários, normalmente apresentando trabalhos com o enfoque do ensino criativo, da utilização de técnicas teatrais e musicais para o ensino da língua e da literatura estrangeiras.

Ah, sim… tirei meu diploma de licenciatura por vias alternativas, pois eu tinha o diploma da Universidade de München de Língua Alemã, e a gente podia revalidar esse diploma com um ano de curso na UERJ. Foi o que eu fiz, afinal era uma professora que já formava outros professores, mas não tinha nenhum diploma válido no Brasil.

Dei aulas de música na favela de Nova Brasília, na favela do Cantagalo e aqui no JB no Patronato da Gávea, como trabalho voluntário. Gostei demais dessa experiência, e algum dia pretendo voltar a fazer isso.

Outra experiência “artística” que tive foi trabalhando num filme tipo “novela” para a televisão alemã. Chamava-se “A Outra” e foi filmado no nordeste, no Recife, Olinda e Paulo Afonso. Eu não era nem a “uma” nem “a outra”. Era um “papelzinho bem medíocre”, quase uma ponta.

Mas como a galera da produção do filme, a assistência de direção e os atores efetivamente “piraram” nos trópicos, acabei dando uma de produtora, assistente de direção e pau-pra-toda-obra, porque o pessoal estava doidão 90% do tempo. Foi minha experiência profissional mais radical, e a única vez na vida que quis seriamente abandonar um trabalho. Mas como sou filha de pastor luterano, não dei conta de deixar a galera na mão. Então engoli em seco e mandei brasa. Acabei ficando MUITO amiga, irmã mesmo, de algumas pessoas envolvidas na filmagem, que até hoje são meus melhores amigos na Alemanha.

No Baukurs tenho organizado vários eventos ao longo dos anos, como lançamento de livros, palestras, mesas redondas, saraus, pequenos concertos e muitas, muitas festas, que a gente é festeiro à vera. Quando os meninos eram pequenos, escrevi várias estórias infantis, ilustrei as mesmas, mas nunca publiquei. A cada aniversário deles, inventávamos peças de teatro. Compus várias músicas infantis e fizemos até um circo, que foi o máximo. Acho que exercitei muito o prazer da criação com meus filhos, que foram enorme fonte de inspiração.

Sempre gostei muito das artes plásticas. Fiz algumas tentaivas na pintura, mas na realidade sou mais uma artesã que uma artista. A Fayga dizia que o verdadeiro artista necessariamente é um artesão, mas nem sempre é vice-versa. Ela tinha grande respeito pelos artesãos.

Descobri o mundo dos mosaicos há uns 4 anos, quando minha sogra morreu e eu quis fazer um presente bem especial para meu marido Jades e seus irmãos, que estavam tristíssimos. Me apaixonei, e cheguei a participar de uma aula em Veneza, em uma das fábricas mais antigas de smalti do mundo. Foi delicioso, e assim que eu tiver mais tempo, pretendo fazer um curso por lá ou em Ravena.

Acho que certamente esqueci milhares de coisas, mas como já virou o velho testamento, chega, né? Beijinho, Thea.

Veja fotos da Thea fazendo os mosaicos para a Casa da Rua Goethe.
http://www.flickr.com/photos/baukurscultural/sets/72157623554025377/

Como fazer um mosaico com pessoas e ideias? Saiba conhecendo um pouco mais sobre Thea e o Baukurs.

Conseguimos convencer Thea Schünemann, a diretora e fundadora do Baukurs e do Baukurs Cultural, a autorizar a publicação do belo relato de suas realizações através do tempo. O texto abaixo foi escrito por ela mesma, com o objetivo de nos dar informações que seriam compiladas como currículo. Mas achamos que a compilação é desnecessária e vimos a importância de publicar na íntegra essa linda trajetória. Aproveite!

Quem sou eu?, por Thea Schünemann

Acho que minha experiência com o mundo artístico começou quando eu tinha 15 anos de idade e passei um ano em um internato luterano no Rio Grande do Sul. Minha família morava no Rio mas minha mãe, exausta com a filha rebelde (eu sou a quinta filha, a caçula!), me mandou para esse internato em Novo Hamburgo. Ao contrário de ser um castigo, foi uma experiência extremamente libertadora. ADOREI o internato.

É verdade que no final de um ano fui convidada a me retirar, tendo como observação em minha ficha 7 (era assim que se chamava o boletim naquele tempo) a obsrervação: líder negativa “inadaptável” socialmente.

Era a época dos festivais da canção, e no embalo destes, no RGS também havia o festival da canção dos estudantes do colegial, como era chamado na época o segundo grau. Eu tocava violão e flauta doce, cantava e compunha umas músicas tipo samba-canção. Ganhei o festival da cidade de Novo Hamburgo na categoria de composição e interpretação, e fui participar do festival estadual. Meu primo Werner Schünemann (o ator da TV Globo) ganhou o primeiro lugar no festival estadual. Eu ganhei o segundo, ele o terceiro e eu o quarto… Ou seja, só dava Schünemann.

Bom… mais tarde, mas ainda jovem (bem jovem) participei do movimento de teatro alternativo (teatro de rua) que ficava sediado no teatro Cacilda Becker, no Rio de Janeiro. Meu grupo chamava-se Pé de Chinelo, e à frente do grupo estava o Zé da Costa (hoje professor de Teatro da Unirio). Participei um pouco também do grupo Dia-a-Dia e tive aulas com Amir Haddad (que nem deve mais se lembrar de mim!). Cheguei a entrar para a faculdade de teatro da Unirio, mas não cursei quase nada.

Casei com o Zé Carlos de Souza, diretor do grupo TAL e ativista pelo então recém fundado movimento pela consciência negra. Como o Zé Carlos tinha 3 filhos do primeiro casamento que viviam com a gente e alguém precisava ganhar o pão, ficava mais fácil esse alguém ser eu, já que eu falava alemão. Susi, minha irmã, me convidou a fundar o Baukurs, com mais 3 sócias, e apesar de eu ser o “azarão” da parada, acabei conduzindo o Baukurs sozinha, pois a sócias anteriores foram se afastando do curso com o passar dos anos.

Nessa época, também fui contratada pela Escola Corcovado para ministrar aulas de artes plásticas e música/flauta para crianças. Depois de 1 ano na escola passei a também dar aulas de alemão e fundei um grupo de teatro com alunos adolescentes na escola, um curso extra-currícular. Depois de mais 1 ano fui convidada a ser coordenadora do ensino de alemão.

No Baukurs, nesse tempo, criei o Cineclube Baukurs. Participei de várias jornadas de cineclubistas em Curitiba. Éramos jovens sedentos para ver filmes que não passavam no circuito comercial. Filmes europeus, proibidos pela censura. Tinha um gostinho bom de fazer algo proibido… e discutir a vida, afinal, era uma época de muita repressão. Alguns cineclubes viraram inclusive pontos de organização da esquerda.

Ainda no Baukurs dei aulas de mímica, como recurso para a língua, e na Escola Corcovado implementamos um método revolucionário para o aprendizado da língua alemã, que utilizava o fantoche como veículo da comunicação da língua estrangeira. Acabei me interessando muito sobre esse novo método e fiz vários cursos para aperfeiçoar a metodologia, inclusive na Alemanha.

Mais tarde criamos o Coro do Baukurs. Primeiro tentei reger o coro, mas rapidamente verifiquei que não tinha conhecimento teórico de música suficiente para tal. Marcelo Bucique, Caio Senna e Júlio Moretzsohn (exepcionais músicos e regentes) foram os 3 regentes do Coro Baukurs. Julio regeu o Coro por mais tempo (10 anos), e realizou um excelente trabalho. Era talvez um dos melhores coros amadores do Rio de Janeiro. Eu cantei durante 8 anos no coro, depois me afastei.

Fui também contratada pelo Instituto Goethe e com o passar dos anos me especializei em literatura alemã. No decorrer do tempo, fiz vários cursos de especialização na Alemanha, sempre nessa área. Passei a trabalhar também com formação de professores.

No Baukurs, além do Coro e do Cineclube nós também fizemos algumas aulas de teatro e língua, organizamos workshops de culinária, exposições (pequenas) e fizemos muitas, muitas festas. Teve uma emblemática, inesquecível, que foi uma festa de Natal no Museu do Açúde. Foi MARAVILHOSO!

Nesses anos dei algumas entrevistas e participei de alguns congressos e seminários, normalmente apresentando trabalhos com o enfoque do ensino criativo, da utilização de técnicas teatrais e musicais para o ensino da língua e da literatura estrangeiras.

Ah, sim… tirei meu diploma de licenciatura por vias alternativas, pois eu tinha o diploma da Universidade de München de Língua Alemã, e a gente podia revalidar esse diploma com um ano de curso na UERJ. Foi o que eu fiz, afinal era uma professora que já formava outros professores, mas não tinha nenhum diploma válido no Brasil.

Dei aulas de música na favela de Nova Brasília, na favela do Cantagalo e aqui no JB no Patronato da Gávea, como trabalho voluntário. Gostei demais dessa experiência, e algum dia pretendo voltar a fazer isso.

Outra experiência “artística” que tive foi trabalhando num filme tipo “novela” para a televisão alemã. Chamava-se “A Outra” e foi filmado no nordeste, no Recife, Olinda e Paulo Afonso. Eu não era nem a “uma” nem “a outra”. Era um “papelzinho bem medíocre”, quase uma ponta.

Mas como a galera da produção do filme, a assistência de direção e os atores efetivamente “piraram” nos trópicos, acabei dando uma de produtora, assistente de direção e pau-pra-toda-obra, porque o pessoal estava doidão 90% do tempo. Foi minha experiência profissional mais radical, e a única vez na vida que quis seriamente abandonar um trabalho. Mas como sou filha de pastor luterano, não dei conta de deixar a galera na mão. Então engoli em seco e mandei brasa. Acabei ficando MUITO amiga, irmã mesmo, de algumas pessoas envolvidas na filmagem, que até hoje são meus melhores amigos na Alemanha.

No Baukurs tenho organizado vários eventos ao longo dos anos, como lançamento de livros, palestras, mesas redondas, saraus, pequenos concertos e muitas, muitas festas, que a gente é festeiro à vera. Quando os meninos eram pequenos, escrevi várias estórias infantis, ilustrei as mesmas, mas nunca publiquei. A cada aniversário deles, inventávamos peças de teatro. Compus várias músicas infantis e fizemos até um circo, que foi o máximo. Acho que exercitei muito o prazer da criação com meus filhos, que foram enorme fonte de inspiração.

Sempre gostei muito das artes plásticas. Fiz algumas tentaivas na pintura, mas na realidade sou mais uma artesã que uma artista. A Fayga dizia que o verdadeiro artista necessariamente é um artesão, mas nem sempre é vice-versa. Ela tinha grande respeito pelos artesãos.

Descobri o mundo dos mosaicos há uns 4 anos, quando minha sogra morreu e eu quis fazer um presente bem especial para meu marido Jades e seus irmãos, que estavam tristíssimos. Me apaixonei, e cheguei a participar de uma aula em Veneza, em uma das fábricas mais antigas de smalti do mundo. Foi delicioso, e assim que eu tiver mais tempo, pretendo fazer um curso por lá ou em Ravena.

Acho que certamente esqueci milhares de coisas, mas como já virou o velho testamento, chega, né? Beijinho, Thea.

Veja fotos da Thea fazendo os mosaicos para a Casa da Rua Goethe.
http://www.flickr.com/photos/baukurscultural/sets/72157623554025377/


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