His/estória 5 – de como aprendi o dativo com a Susi

Naquela época não havia bem um curso preparatório para aprendermos a dar aulas de alemão como língua estrangeira.

A bem da verdade, só havia um método didático para o curso básico, para o avançado a gente se virava com uma apostila desenvolvida por um grupo de professores do Goethe da Alemanha, chamado Thuriner Programm.  Dá pra imaginar que no curso avançado a gente tinha que inventar praticamente tudo, mas isso vou contar mais a frente.

Todos nós, professores de alemão daquela época fomos de certa forma “cria” da Dona Ilse Beutner, professora do Goethe, que dava um cursinho para aprendermos a ensinar alemão. Esse curso consistia em assistirmos as aulas da Frau Beutner e depois conversar com ela sobre as questões didáticas. Era funcional, mas era insuficiente.  E só havia o tal curso para a primeira lição do primeiro nível.

Também não havia nenhum manual do professor.

Quando vejo os livros didáticos atuais morro de inveja dos professores. Hoje os livros didáticos de alemão como língua estrangeira são considerados os melhores didática e metodologicamente. A Alemanha investiu muito nessa área depois da queda do muro, por conta da demanda do Leste Europeu.

Mas estou me perdendo no assunto.

Voltando a vaca fria, por conta dessas dificuldades todas mencionadas anteriormente, nós no Baukurs “inventamos” nosso próprio jeito de aprender a dar aulas.

A gente assistia um nível inteiro com outra professora de nosso grupo, antes de poder ministrar no próximo semestre aquele nível.

Isso funcionava bastante bem. De nós quatro, a única de fato formada em letras alemão/português era a Márcia que havia estudado na UERJ. Patrícia, Susi e eu aprendemos na prática, ou seja, na marra.

As três, Susi, Patrícia e Márcia eram ótimas professoras, cada uma com características e talentos diferentes. E eu, que ainda era bem verdinha no ofício, aprendi um bocado com elas. À  Márcia eu devo a organização gramatical, porque ela era fera demais no assunto. À Susi devo o restante todo, porque ela desde sempre foi e é uma professora completa. As aulas da Patrícia eu nunca assisti, porque nossos horários não eram compatíveis.

A Susi preparava prá caramba as aulas dela, escrevia passo a passo o que ela iria fazer na aula, com todos os detalhes. Como se fosse mesmo um manual do professor. E ela generosamente disponibilizava o tal manual que havia criado a todos que precisavam ainda aprender a dar aula. Copiei vários cadernos da Susi, que foram minha bíblia durante anos.

Bem, eu estava justamente assistindo uma aula da Susi do segundo nível. Era uma lição que introduzia o caso de declinação do dativo.

A uma certa altura, depois de ter praticado oralmente o diálogo e feito exercícios, a Susi entrou naquela etapa da aula que se chama de racionalização do conteúdo, em que se escreve então no quadro a síntese do conteúdo gramatical.

Susi, depois das devidas explicações e exemplificações, foi fazer o quadro dos artigos, para exemplificar melhor vou escrever aqui:

 

TIPO                      Masculino     Feminino     Neutro

Nominativo             der                die               das

Akkusativo              den               die               das

Dativo                     dem              der              dem

 

Depois de escrito no quadro, Susi olhou novamente para o seu quadrinho de artigos na comparação dos casos de declinação e se espantou. O “die”, feminino, no dativo havia virado “der”.

Ela olhou mais uma vez, conferiu com suas anotações, e de fato, Tb. ali o “die” tinha virado “der”. COMO ASSIM????

Era espantoso demais, era algo como se o artigo “a” feminino em português, tivesse em outro caso de declinação virado “o” masculino. Não podia ser, PODIA?

Susi olhou prá mim desesperada e perguntou: – “Thea o “die” virou “der”??????????????? NÃO PODE SER!!!”

Ao que eu respondi encabulada e insegura: “Sei lá, não sei.

E a Susi: – Thea você está entendendo??? O “die” virou “der”!!!!!!!

E eu sem entender chongas do que ela falava: – Susi, eu não tenho nada a ver com isso!” – porque de fato eu não tinha a mínima ideia do que ela estava falando!

Claro que nessas horas tem sempre aquele aluno super solícito, do tipo que estuda a lição antes da aula, que disse: “Professora, aqui no quadrinho do livro o “die” também virou “der”.

Susi praticamente arrancou o livro da mão do aluno!    “Deixa eu ver!” – “É mesmo, aqui Tb. o “die” virou “der” Mas isso é IMPOSSIVEL!!!”

E ela, cada vez mais confusa, olhava pro livro, olhava pro caderno, olhava prá mim (que disfarçava covardemente), olhava novamente pro quadro, sem entender nada do que acontecia.

Simplesmente o “die” não podia virar “der”. Era um acinte!!!

Uma aberração para uma língua tão exata como a língua alemã. Era quase que um cataclisma gramatical!

Completamente sem graça, vermelha até a raiz dos cabelos, Susi finalmente derrotada, declarou aos alunos, que ela não sabia o que estava acontecendo, que não sabia mais dizer, se o “die” virava “der”, se o “die” não virava “der”. Era quase um “ser ou não ser”!

Completamente arrasada emocionalmente, Susi disse então, – o que todos nós professores dizemos quando não sabemos na hora o que dizer -, que na próxima aula ela daria a explicação devida.

De fato o “die” vira mesmo “der” no dativo, algo realmente espantoso!

Um aluno meu, anos mais tarde,  também ficou revoltado quando o “die” virou “der”, e declarou que nós professores, que sempre elogiamos tanto a absoluta racionalidade da língua alemã deveríamos nos sentir envergonhados por um absurdo desses, porque o “die” virar “der” é no mínimo uma falta total de estilo!!!

Bom, acho que reclamações desse tipo deveriam ser endereçadas diretamente ao grande gênio da língua alemã, Johann Wolfgang von Goethe.
Afinal, a gente não tem nada a ver com isso!!! Ou tem???

 

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