Ingeborg Bachmann

Ver e escutar Ingeborg Bachmann é uma experiência perigosa. Em algumas entonações ou pausas que escapam de seu cuidado, temos a impressão de poder acessar intimidades antes guardadas em segredo. Então, sua voz retoma a clareza de quem doma a sua dor. Ingeborg Bachmann fala com a firmeza e a simplicidade de quem não precisa de firulas ou adornos, de quem escolhe a palavra certa e em colocação precisa. Recita seus poemas em postura desafiadora e afirmando o ato corajoso da exposição. Sua voz é rígida e melódica, como seu nome. 

Bachmann nasceu em Klagenfurt, na Áustria, em 1926. Aos doze anos, viu os nazistas marcharem em sua cidade, inaugurando o tempo de destruição, colapso físico, moral e espiritual que deu o tom da sua juventude. Estudou filosofia, psicologia e letras em Innsbruck, onde nutriu uma intensa relação com outros poetas fundamentais da língua alemã, como Paul Celan e Ilse Aichinger. Logo, fez parte da chamada “Gruppe 47”, movimento pela renovação da literatura alemã do pós-guerra do qual também fizeram parte nomes como Günter Grass e Heinrich Böll. 

De grande sensibilidade social, Bachmann tratou de perguntas de fundo da alma humana, das possibilidades de mudança do mundo e dos mecanismos de opressão da mulher. Tratou dos limites da expressão linguística e das questões mais fundamentais da existência. O relacionamento turbulento com o autor suíço Max Frisch marcou profundamente a sua experiência literária. Faleceu em um incêndio trágico no quarto de um hotel em Roma, aos 47 anos. 

Aqui, uma pequena janela para o mundo infinito (e sem volta) que é o encontro com Ingeborg Bachmann, a grande senhora da literatura da Áustria. Esperamos que gostem e que não parem por aí.

 

 

AN DIE SONNE

Schöner als der beachtliche Mond und sein geadeltes Licht,

Schöner als die Sterne, die berühmten Orden der Nacht,

Viel schöner als der feurige Auftritt eines Kometen

Und zu weit Schönrem berufen als jedes andre Gestirn,

Weil dein und mein Leben jeden Tag an ihr hängt, ist die Sonne.

Schöne Sonne, die aufgeht, ihr Werk nicht vergessen hat

Und beendet, am schönsten im Sommer, wenn ein Tag

An den Küsten verdampft und ohne Kraft gespiegelt die Segel

Über dein Aug ziehn, bis du müde wirst und das letzte verkürzt.

Ohne die Sonne nimmt auch die Kunst wieder den Schleier,

Du erscheinst mir nicht mehr, und die See und der Sand,

Von Schatten gepeitscht, fliehen unter mein Lid.

Schönes Licht, das uns warm hält, bewahrt und wunderbar sorgt,

Daß ich wieder sehe und daß ich dich wiedersehet.

Nicht Schönres unter der Sonne als unter der Sonne zu sein…

Nicht Schönres als den Stab im Wasser zu sehn und den Vogeloben,

Der seinen Flug überlegt, und unten die Fische im Schwarm,

Gefärbt, geformt, in die Welt gekommen mit einer Sendung von Licht,

Und den Umkreis zu sehn, das Geviert eines Felds, das Tausendeck meines Lands

Und das Kleid, das du angetan hast. Und dein Kleid, glockig und blau!

Schönes Blau, in dem die Pfauen spazieren und sich verneigen,

Blau der Fernen, der Zonen des Glücks mit den Wettern für mein Gefühl,

Blauer Zufall am Horizont! Und meine begeisterten Augen

Weiten sich wieder und blinken und brennen sich wund.

Schöne Sonne, der vom Staub noch die größte Bewundrung gebührt,

Drum werde ich nicht wegen dem Mond und den Sternen und nicht,

Weil die Nacht mit Kometen prahlt und in mir einen Narren sucht,

Sondern deinetwegen und bald endlos und wie um nichts sonst

Klage führen über den unabwendbaren Verlust meiner Augen.

 

AO SOL

Mais belo que a notável lua e sua nobre luz

Mais belo que as estrelas, as insígnias célebres da noite,

Muito mais belo que a irrupção em chamas de um cometa

E eleito para algo mais belo que outro astro qualquer, 

Pois minha e tua vida a ele estão ligadas dia a dia, é o sol.

Belo sol que, ao se erguer, não esqueceu suas tarefas

E as cumpre ainda com mais beleza no verão quando, na costa,

Um dia se evapora e, refletidas sem esforço, as velas passam 

Pelo teu olho até que te fatigues e abrevies a derradeira.

Sem o sol mesmo a arte volta a pôr o véu,

Não me apareces mais e, vergastados pelas sombras, 

Areia e mar abrigam-se sob minha pálpebra.

Bela luz que nos dá calor, nos guarda e propicia esse prodígio

Que é novamente ver e ter rever.

Não mais belo sob o sol do que estar sob o sol…

Nada mais belo do que ver a haste na água e, rio alto, o pássaro

Ponderando seu vôo e, embaixo, os peixes em cardumes 

de muitas cores, multiformes e trazidos num jato de luz ao mundo,

Ver a circunferência, o quadrilátero de um campo, ângulos mil do meu país 

E o vestido que vestes. Teu vestido azul em forma de campânula.

Tão belo azul no qual pavões, passeando, fazem reverências, 

Azul dos longes, de regiões felizes que têm climas para meus humores,

Azulíssimo acaso no horizonte. E, arrebatados, os meus olhos

dilatam-se outra vez e piscam e ardem doloridos.

Belo sol que merece a ilimitada admiração do próprio pó,

Por isto e não devido à lua ou às estrelas nem à noite 

Que, procurando me fazer de tola, ostenta seus cometas, 

Mas sim por tua causa e, em breve sem cessar, que em torno de mais nada,

Lamentarei a perda inevitável dos meus olhos.

Poesia Alheia, 124 Poemas Traduzidos, [Tradução e Organização]

Nelson Ascher, Rio de Janeiro, Imago Ed., 1998, p. 302-305.

 

 

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