His/estória 3 – Encontro com Herr Michahelles

Depois de termos tido a enorme sorte de um grande jurista confeccionar nosso Contrato Social gratuitamente, tínhamos outros dois grandes obstáculos pela frente: encontrar um imóvel adequado e mais difícil, arranjar um fiador!!!

Encontramos 3 salas comerciais no segundo andar de um prédio na Rua Jardim Botânico; primeiro prédio comercial construído nesse bairro, o 635.

Uma das salas tinha uma linda vista para a lagoa, um luxo! As outras duas davam para rua, bem menos simpáticas! Mas as salas eram do tamanho certo e ficavam no andar certo.

Na época, um curso de línguas não podia se instalar em salas acima do quinto andar de um prédio, regra essa do Corpo de Bombeiros, pois a evacuação de muita gente em caso de incêndio fica muito complicada em um andar mais elevado. Era muito difícil achar um imóvel dentro dessas exigências.

Em Ipanema então, era impossível! Procuramos uma alternativa e seguimos para o Jardim Botânico, desde sempre o bairro da TV Globo!

Eu era militante de esquerda e impliquei direto com isso, mas enfim, voto vencido, principalmente porque na realidade o JB era o bairro possível.

Depois de encontrado o imóvel, precisávamos de um fiador!

Quem seria louco o suficiente para assinar embaixo desse projeto dessas jovens sonhadoras, e arriscar arcar com um custo enorme no caso de não cumprimento de um aluguel?

E quem teria cacife suficiente para poder ser fiador de três salas comerciais ao mesmo tempo, já que na época a regra para se ser fiador, era ter uma renda que fosse pelo menos 5 vezes o valor do aluguel?

Eu tinha um ex-namorado, Ronald Michahelles, de quem eu ainda era muito amiga e cuja família sempre havia me acolhido com enorme carinho.

Os Michahelles eram minha segunda família, e o próprio Ronald sugeriu que eu perguntasse ao pai dele.

Fui com minha cara de pau total falar com ele e qual não foi minha surpresa? Ele com a elegância de um gentleman, que sempre fora, concordou na hora em ser nosso fiador.

Fico pensando que a juventude é mesmo uma benção. Eu atualmente nunca teria coragem de pedir algo assim a ninguém. Morreria de vergonha, mas aos 17 anos…

Penso muitas vezes nessa atitude do Herr Mischahelles, e sempre me espanta a confiança que ele imediatamente teve em nós e em nosso projeto.

Se um jovem nessa idade que eu tinha na época, viesse hoje a mim, pedir para ser sua fiadora, será que eu toparia? Difícil, né?

Mas o senhor Alfred Michahelles, para nós sempre Herr Michahelles, foi um verdadeiro anjo da guarda. Sempre nos acolheu com um sorriso, sempre se interessou pelos caminhos e descaminhos do Baukurs.

Em várias ocasiões me/nos aconselhou e principalmente, teve um profundo entendimento e um enorme orgulho de nosso trabalho e de nosso sucesso. Mesmo que o sucesso não fosse tanto assim!

Depois que Herr Michahelles faleceu, sua filha Kristina, também minha grande amiga, assumiu a condição de fiadora, até o dia em que o Baukurs pode comprar seu próprio imóvel.

Para homenagear essa família tão importante na nossa história, uma de nossas salas no Baukurs Botafogo chama-se Alfred Michahelles.

Gratidão eterna!!

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